Brazlândia: a terra que alimenta o DF e guarda a água de Brasília
De onde saem 98% da goiaba e a maior safra de morango do DF — e onde fica o Lago Descoberto, que responde por mais de 60% da água que chega às torneiras da capital

Antes de Brasília existir, Brazlândia já plantava. Criada em 1933, quando a capital federal ainda era um traço no mapa, a cidade cresceu entre lavouras e nascentes — e virou, sem alarde, um dos alicerces do Distrito Federal. É de Brazlândia que sai boa parte do que o brasiliense come. E é em Brazlândia que fica o lago que mata a sede de mais da metade da população do DF.
A capital da goiaba e do morango
O Distrito Federal produz cerca de 31,8 mil toneladas de frutas por ano, em 1,2 mil hectares, com 600 produtores, segundo a Agência Brasília. O carro-chefe é a goiaba, com mais de oito mil toneladas — e 98% dela sai de Brazlândia. O morango, outra estrela da região, tem safra de 4,7 mil toneladas e sua força de colheita concentrada na cidade. Segundo a Associação Rural e Cultural Alexandre de Gusmão (Arcag), a região responde por 90% do cultivo de morango no DF.
O morango chegou a Brazlândia pelas mãos de famílias japonesas vindas de Atibaia, em São Paulo, que começaram o cultivo nos anos 1970, segundo estudo da Embrapa. Deu tão certo que virou cultura, festa e sustento: a Feira do Morango, realizada na sede da Arcag, no km 13 da BR-080, chega a receber 500 mil visitantes em oito dias, com 40 produtores locais e entrada franca — e serve de tudo: geleias, sucos, tortas e até chope de morango. Em março, é a vez da Festa da Goiaba celebrar a outra fruta-símbolo da cidade.
A força aparece também na prateleira: na Ceasa-DF, a goiaba (78%), o morango (75%) e o abacate (62%) são produtos em que o DF detém a maior fatia de vendas frente ao que vem de fora. E a produtividade impressiona: 82% da área de cultivo de frutas do DF é irrigada, e a média de produtividade de frutas como maracujá, uva, goiaba e morango é maior que a média do Brasil, mesmo com áreas de produção pequenas. O apoio vem da Emater-DF, com assistência técnica e oficinas, do BRB, com R$ 1 bilhão em linhas de crédito rural nos últimos três anos, e de programas como o Cesta Verde, que compra a produção local.
Muito além das frutas
Quem pensa que Brazlândia é só morango e goiaba não conhece a dimensão da sua lavoura. Um levantamento da distribuição da produção agrícola no DF mostra que a região responde por 82,35% da batata, 67,37% da beterraba, 52,39% da alface (13.357,50 toneladas) e 45,92% do repolho (5.590 toneladas) produzidos no DF. A goiaba, no ano analisado, somou 8.049 toneladas em 294,70 hectares — 99,36% do total do DF. Tangerina (1.402,20 toneladas), limão (1.274,10 toneladas), maracujá (1.050 toneladas) e banana (640,45 toneladas) completam a lista.
Não à toa, o deputado Iolando, que é de Brazlândia, já destacou que a região responde por quase 60% do abastecimento agrícola de todo o DF. A produção se espalha pelos núcleos rurais Alexandre Gusmão, Dois Irmãos, Engenho Queimado, Desterro, Chapadinha e Barreiro, em pequenas propriedades de agricultura familiar — e, segundo a Administração Regional, cerca de 30 mil pessoas vivem na área rural de Brazlândia, contra 54 mil na área urbana. É o campo morando ao lado da cidade, e alimentando a cidade.
A água que nasce em Brazlândia
Se a mesa do DF passa por Brazlândia, a torneira também passa. Dentro da região está o Lago Descoberto, formado pela Barragem do Rio Descoberto, responsável por mais de 60% do abastecimento de água do Distrito Federal, segundo a Caesb — o Ibram já citou 65%. Depois de tratada, essa água chega a Ceilândia, Taguatinga, Gama, Guará, Samambaia, Riacho Fundo, Recanto das Emas, Águas Claras, Santa Maria, Núcleo Bandeirante, Candangolândia e parte do Plano Piloto.
A própria Brazlândia é atendida pelo Sistema Brazlândia, que representa cerca de 4% do abastecimento do DF e abastece exclusivamente a região, por meio dos sistemas isolados do Barrocão e do Capão da Onça, cada um com dois poços tubulares profundos. Para reforçar a oferta, a Caesb construiu a captação do córrego Olaria, com capacidade de 40 litros por segundo e uma rede de 7.304 metros até a Estação de Tratamento Brazlândia, que trata 165 litros por segundo e armazena 3 milhões de litros de água potável.
O desafio é o tamanho da responsabilidade: o DF fica numa região de cabeceiras de rios, sem grandes volumes de água. Todo ano, entre agosto e novembro, o nível das fontes cai e o consumo sobe de 7% a 10% em Brazlândia, justamente na estiagem em que a cidade, de vocação agrícola, mais precisa de água.
O paradoxo: produzir e preservar
Proteger o Descoberto é proteger a si mesma — e é aí que mora o paradoxo de Brazlândia. O lago faz parte da Área de Proteção Ambiental (APA) do Descoberto, criada pelo Decreto nº 88.940/83, com 39.100 hectares, e tem uma faixa de proteção de 125 metros em suas margens. O Projeto Descoberto Coberto, iniciado em 2009, planta mudas nativas do Cerrado para recuperar a vegetação e a qualidade da água.
Mas as pressões não param: erosão, impermeabilização do solo, desmatamento no entorno, invasão das margens por atividades agrícolas e a expansão de Águas Lindas, em Goiás, ameaçam a bacia. O entorno do lago é ocupado por chácaras de hortifrutigranjeiros e reflorestamento de pinus e eucaliptos — a mesma terra que alimenta o DF precisa ser cuidada para continuar dando água ao DF.
Por isso, Brazlândia é, ao mesmo tempo, a despensa e a caixa-d'água do Distrito Federal. Cada goiaba, cada morango, cada pé de alface que sai de lá — e cada copo d'água que chega à torneira de mais da metade da capital — passa por essa cidade mais velha que Brasília. Conhecer, valorizar e preservar Brazlândia é cuidar do que o DF come e do que o DF bebe.
Foto de capa: Gabriel Jabur/Agência Brasília.
Fonte: Agência Brasília, Caesb, Ibram e CLDF
Leia também
EventosVÍDEO: incêndio atinge galpão e causa coluna de fumaça em Ceilândia, no DF
Incêndio atinge galpão e causa coluna de fumaça no DF Um incêndio atingiu um galpão e causou uma coluna de fumaça em Ceilândia, no Distrito Federal, no início da tarde desta quarta-feira (28). Até a última atualização da reportagem, não há informações sobre vítimas. Segundo o Corpo de Bombeiros, o g
ObrasIncêndio atinge galpão de tapetes em Ceilândia e fumaça preta chama atenção
Divulgação / CBMDF Ler resumo Incêndio em galpão: fogo atingiu uma unidade no Setor de Indústrias de Ceilândia; Combate às chamas: o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal mobilizou viaturas para o local; Estado das vítimas: segundo o CBMDF, não há registro de feridos na ocorrência. Resumo g
Áudio: Exposição de imagens de pessoas mortas nas redes sociais pode se tornar crime
Áudio: Exposição de imagens de pessoas mortas nas redes sociais pode se tornar crime
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) quer tornar crime a exposição indevida de pessoas mortas em ambiente virtual. Um projeto de lei ( PL 5.453/2026 ) prevê pena de um a quatro anos de prisão para quem produzir ou divulgar imagens com esse teor, de forma ultrajante ou degradante. O texto també
Mais lidas
- 1AtlasIntel confirma PoderData/Aya e dá Flávio com 53% e Lula com 47%
- 2Veja ato de Lula na av. Paulista em imagens captadas do alto
- 3Lula e Flávio têm 49% cada um no 2º turno no Amazonas, diz PoderData
- 4Saiba como estão Lula e Flávio nas pesquisas a 6 dias da eleição
- 5Ao vivo: Flávio Bolsonaro realiza ato na av. Paulista