Caso Lito: entenda o que faz a proteína prion ficar infecciosa


Influenciador morreu menos de 2 meses depois de divulgar o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob
Lito Sousa morreu aos 59 anos Reprodução/Facebook @joselito.sousa The Conversation 17.out.2026 (sábado) - 9h30 Priorize o Poder no Google
Em 1º de outubro de 2026, morreu Lito Sousa . O mecânico de aeronaves e criador do canal Aviões e Músicas no YouTube tinha 59 anos e, 41 antes, havia anunciado publicamente o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ).
Esse diagnóstico introduziu uma palavra pouco familiar no noticiário brasileiro: prion . A DCJ é uma condição neurodegenerativa rara, progressiva e até o momento sem cura. A rapidez entre o anúncio e a morte dá a medida do que essa doença é.
A maior parte dos casos de CDJ é esporádica: surge sem causa externa identificável, sem contágio e sem mutação. A doença aparece porque uma proteína que todos nós temos, a proteína prion, mudou de forma.
E é justamente essa mudança de forma que nosso Laboratório NB3 para o Diagnóstico e Desenvolvimento de Estratégias Terapêuticas para Doenças Infecciosas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro , vem investigando, com um resultado recente que indica para um lado da história.
A proteína prion existe em todos nós. Ela fica ancorada na superfície das células, sobretudo no cérebro, e tem funções normais que ainda não conhecemos por completo.
O problema não é a proteína existir: é mudar de forma. A mesma sequência de aminoácidos , sem nenhuma alteração genética, pode se dobrar de um jeito diferente e, a partir daí, começar a se empilhar em fibras que se acumulam no tecido nervoso.
Isso é o que torna as doenças priônicas diferentes. Não há vírus, não há bactéria, não há mutação necessária. Há uma proteína que adotou outra arquitetura.
Durante décadas, a pergunta central foi: o que há de errado com a proteína? Buscaram-se mutações, modificações químicas, instabilidades na estrutura. Muita coisa foi encontrada.
Mas há um segundo lado da equação. A proteína prion não flutua sozinha no meio da célula. Vive grudada na membrana , aquela camada dupla de gorduras que envolve cada célula do nosso corpo. E membranas não são paredes inertes. São estruturas fluidas, que mudam de organização conforme a composição, a temperatura e o que está acontecendo ao redor.
Se a proteína se transforma enquanto está ancorada ali, faz sentido perguntar: a membrana participa dessa transformação?
Aqui ajuda pensar em cristalização . A mesma substância pode formar cristais bem diferentes conforme as condições em que cristaliza: mais rápido ou mais devagar, mais quente ou mais frio, sobre uma superfície ou outra.
O açúcar que vira bala dura e o que vira algodão-doce são quimicamente idênticos. O que muda é a forma como as moléculas se organizam ao se juntarem.
A formação de fibras de proteína funciona de maneira parecida . Não existe uma única forma errada: existem várias arquiteturas possíveis para o mesmo material, e a superfície onde a montagem acontece pode pesar nessa escolha.
Preparamos pequenas vesículas — bolhas microscópicas feitas de um lipídio carregado negativamente, o ácido fosfatídico , presente nas membranas celulares. Colocamos a proteína prion em contato com essas vesículas e acompanhamos o que acontecia.
Para variar o estado físico da membrana sem mexer na proteína, usamos a temperatura como um botão de ajuste. Em temperaturas mais baixas, a membrana fica mais ordenada, com as moléculas de gordura mais alinhadas e compactas.
Em temperaturas mais altas, fica mais desorganizada e fluida. É um efeito conhecido , e conseguimos medir diretamente o quanto a membrana estava ordenada em cada condição.
O resultado foi o que nos interessou. A quantidade de material agregado formado foi parecida em todas as temperaturas. A proteína se juntava de forma semelhante. Mas a arquitetura do que se formava não era a mesma.
As fibras montadas sobre membranas mais organizadas tinham uma estrutura interna diferente daquelas montadas sobre membranas mais fluidas.
Em outras palavras: a proteína era a mesma, a quantidade era a mesma, e ainda assim o produto final era diferente. O que mudou foi o ambiente onde a montagem aconteceu.
O prion é um caso extremo e chamativo, mas não é único. Alzheimer , Parkinson e várias outras doenças neurodegenerativas envolvem proteínas que se acumulam em fibras semelhantes. E todas elas, em algum momento do seu ciclo, interagem com as membranas celulares.
Se o ambiente físico onde a montagem ocorre influencia a arquitetura do resultado, isso abre uma frente de investigação.
Sabemos que a mesma proteína pode gerar quadros clínicos diferentes em pessoas diferentes, com velocidades e sintomas distintos. Parte dessa diversidade pode estar ligada a diferenças na arquitetura dos agregados formados, e, portanto, possivelmente ao ambiente em que se formaram.
Ainda estamos longe de saber se é isso que acontece dentro de uma célula viva. Nosso sistema é simplificado de propósito, somente com um tipo de lipídio e a proteína prion, mais nada do que teria na célula, justamente para isolar uma variável por vez. O caminho até entender o processo no cérebro é longo.
Mas há uma mudança de perspectiva que já podemos propor. Por muito tempo, perguntamos o que uma proteína faz. Talvez a pergunta precise ganhar um complemento: onde ela está quando faz.
Tuane Vieira tem graduação magna cum laude em ciências biológicas, é mestre e doutora em química biológica, professora adjunta do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidad del Algarve .
Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation, em 5 de outubro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .
Fonte: Poder360
Leia também
SaúdeVacina brasileira contra malária vivax tem aval para testes em humanos
Desenvolvida na USP em parceria com o CTVacinas da UFMG, formulação pode ser a 1ª contra essa variedade da doença Aval para testes em humanos foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária; na imagem, feita com ajuda de IA, a ampola de uma vacina Reprodução/Google Gemini Agência Fapesp
SaúdeMulher de 30 anos que morreu baleada perto de casa é velada neste sábado (17) no DF
Mayara Varela morreu aos 30 anos Reprodução Mayara Varela, de 30 anos, que morreu após ser baleada na cabeça em uma rua perto de sua casa na Candangolândia, no Distrito Federal, será velada na tarde deste sábado (17). O crime aconteceu na noite de quinta-feira (15). Mayara chegou a ser levada em est
SaúdeDetentos do CPP invadem USB no DF, ameaçam vigilante e roubam arma
Reprodução / @bastiaonoticias Ler resumo Prisões de detentos: dois detentos do Centro de Progressão Penitenciária foram presos em 16 de outubro; Ação criminosa: a dupla é suspeita de invadir uma Unidade Básica de Saúde em São Sebastião, ameaçar um vigilante e roubar sua arma; Itens apreendidos: poli
Mais lidas
- 1AtlasIntel confirma PoderData/Aya e dá Flávio com 53% e Lula com 47%
- 2Nara Ayres Britto, advogada e filha de ex-ministro, celebra casamento
- 3Filha mata pai cadeirante em Bragança Paulista e transmite crime online
- 4Lula e Flávio têm 49% cada um no 2º turno no Amazonas, diz PoderData
- 5Flávio Bolsonaro Expande Equipe Econômica Para 2026