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Saúde

Exposição precoce ao fumo passivo altera o esmalte dentário

Redação Cerrado em Foco••2 visualizações
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Exposição precoce ao fumo passivo altera o esmalte dentário
Exposição precoce ao fumo passivo altera o esmalte dentário - imagem 2

Estudo com ratos revela modificações químicas nos dentes dos animais expostos à fumaça nos primeiros dias de vida

Pesquisa foi conduzida com apoio da Fapesp na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto; na imagem, um cigarro aceso realworkhard (via Pixabay) Agência Fapesp 17.out.2026 (sábado) - 4h30 Priorize o Poder no Google Por Fernanda Bassette

A exposição passiva à fumaça do cigarro nos primeiros dias de vida pode provocar alterações na mineralização do esmalte dentário, mesmo sem causar mudanças visíveis nos dentes. É o que mostra um estudo em modelo animal realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo. Os resultados foram publicados em maio na revista Calcified Tissue International .

A pesquisa foi conduzida com apoio da Fapesp na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp-USP) e faz parte de uma linha de estudos maior, coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva . O grupo investiga como adversidades no início da vida – incluindo exposição ao álcool, tabaco e estresse – podem afetar o desenvolvimento do organismo. O trabalho mais recente foi conduzido durante o doutorado de Juliana de Lima Gonçalves, primeira autora do artigo.

A linha de pesquisa está inserida em uma teoria conhecida como DOHaD, sigla em inglês para “Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença”. A hipótese defende que muitos problemas de saúde que aparecem na vida adulta têm origem ainda no período embrionário ou nos primeiros anos de vida. Nesse contexto, o esmalte dentário funcionaria como uma espécie de registro biológico.

“O esmalte é uma estrutura muito interessante porque pode funcionar como um biomarcador. Ele se forma naquele momento da vida e depois não sofre remodelação, diferente do osso que segue remodelando durante a vida toda” , afirma Paula-Silva. “Então, detectar alterações no esmalte pode trazer informações importantes sobre exposições muito precoces, que às vezes a pessoa nem consegue recordar” , diz.

Ele explica que a formação do esmalte começa ainda durante a gestação, principalmente nos dentes de leite, mas grande parte da mineralização dos dentes permanentes ocorre na infância. Segundo o pesquisador, embora existam diferentes “janelas” de desenvolvimento dependendo do grupo dentário, a infância é um momento crítico para a formação e maturação do esmalte dentário.

Para investigar os possíveis efeitos da fumaça passiva nesse processo de formação do esmalte, os pesquisadores dividiram filhotes de ratos em 2 grupos. Um deles foi exposto à fumaça de cigarro duas vezes por dia, durante 5 minutos, desde o segundo até o 28º dia de vida. O grupo-controle permaneceu sem exposição. Os animais foram colocados dentro de uma caixa de acrílico onde a fumaça era liberada de forma controlada. “O roedor é um modelo muito interessante porque conseguimos controlar a exposição. O animal fica exposto só à fumaça do cigarro e a nada mais, diferentemente do humano, que está exposto a outras coisas do ambiente” , diz.

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Paula-Silva conta ainda que os dentes incisivos dos roedores crescem continuamente, permitindo acompanhar a formação do esmalte de forma mais dinâmica. “Nós conseguimos olhar para a célula que está formando o esmalte e para o esmalte em si.”

Os pesquisadores também monitoraram peso, crescimento corporal e desenvolvimento dentário dos animais. O primeiro achado foi que os filhotes expostos à fumaça apresentaram menor ganho de peso em comparação ao grupo-controle, seguindo o que a literatura já aponta sobre os efeitos do fumo passivo no ganho de peso. “Mesmo uma exposição muito pequena ao cigarro impactou o crescimento desses animais”, relata Paula-Silva.

Quando os dentes foram analisados a olho nu, no entanto, não apareceram diferenças importantes entre os grupos. Por isso, os pesquisadores decidiram fazer análises microscópicas e químicas nos dentes dos roedores. Assim, identificaram aumento do espaço entre os prismas do esmalte, estruturas microscópicas que organizam a composição mineral do dente. Também observaram redução nos níveis de fósforo no esmalte dentário dos animais expostos à fumaça.

Segundo o professor, o fósforo é um dos componentes da hidroxiapatita, molécula responsável pela dureza do esmalte. Alterações nessa composição podem afetar propriedades mecânicas do dente, como resistência ao desgaste e a fraturas. O estudo também identificou aumento da quantidade de carbono no esmalte dos animais expostos à fumaça. Segundo Paula-Silva, esse achado chama atenção porque o esmalte dentário é uma estrutura essencialmente mineral e praticamente sem matéria orgânica.

“O esmalte é a estrutura mais dura do corpo humano justamente porque ele é altamente mineralizado. O aumento de carbono sugere maior presença de material orgânico no esmalte, o que não é considerado normal” , explica Paula-Silva ao ressaltar que, associada à redução de fósforo observada no estudo, essa alteração pode modificar características importantes do esmalte, como resistência e dureza.

Apesar disso, os testes não mostraram redução na dureza inicial do esmalte. Para o professor, uma das hipóteses para explicar esse resultado é que os animais ainda eram muito jovens e não haviam utilizado os dentes de forma intensa, já que foram desmamados aos 21 dias e o experimento terminou uma semana depois. “Eles praticamente não usaram esses dentes. O que a gente precisa entender agora é como esse esmalte vai se comportar com o uso ao longo do tempo. Será que essa alteração na composição química vai impactar a resistência do dente no futuro? Essa ainda é uma pergunta em aberto” , afirma.

Para responder a essa questão, o grupo já deu início a uma nova etapa da pesquisa. Os animais estão sendo submetidos a uma exposição maior à fumaça do cigarro, de cerca de uma hora, duas vezes ao dia. A expectativa é verificar se uma carga mais intensa de exposição é capaz de produzir alterações mais evidentes na estrutura do esmalte e reproduzir defeitos que se aproximem daqueles observados em humano

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Fonte: Poder360

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