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Segurança

Favelas: R$ 300 bilhões em potencial desafiam o mercado de seguros

Redação Cerrado em Foco
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Favelas: R$ 300 bilhões em potencial desafiam o mercado de seguros
Favelas: R$ 300 bilhões em potencial desafiam o mercado de seguros - imagem 2

A favela não está esperando para descobrir o risco; o risco já faz parte da vida dela. O que ainda não se resolveu é como transformar esse risco em um mercado de proteção.

Quando a sobrinha da assistente administrativa Helen de Araújo faleceu, a família descobriu que havia uma conta que não podia esperar pelo luto: a do funeral.

Aos 30 anos, moradora da favela de Paraisópolis, em São Paulo, Helen viu parentes se reunirem para pagar o velório e o enterro. Cada um contribuiu com o que podia: um pouco no cartão, outro tanto em dinheiro. A morte não trouxe apenas a dor, mas também uma despesa que precisava ser paga imediatamente.

A experiência marcou Helen. Três meses antes de conversar com o Poder360, em setembro, ela contratou um seguro pessoal que, entre outras coberturas, inclui assistência funerária. Helen não espera ter que usar o seguro, mas viveu a dor de enfrentar uma despesa inesperada sem ter dinheiro reservado para isso.

“As coisas acontecem quando a gente está mais vulnerável e eu não quero ficar à mercê, né? O mundo não espera que a gente tenha dinheiro para que venham tragédias”, disse.

A história de Helen resume um paradoxo que começa a chamar a atenção do mercado de seguros: para quem tem pouca reserva, eventos graves podem provocar, além da dor, uma grande ruptura financeira. A proteção, portanto, pode ser mais necessária justamente para quem tem menos margem para absorver um imprevisto.

A favela não está esperando para descobrir o risco. O risco já faz parte da vida dela. O que ainda não se resolveu é como transformar esse risco em um mercado de proteção.

Nas favelas brasileiras vivem 17,2 milhões de pessoas, distribuídas por 6,6 milhões de domicílios. Juntas, essas famílias movimentam R$ 300 bilhões em renda própria por ano — mais do que a economia de 22 dos 27 Estados brasileiros e quase a totalidade do PIB boliviano.

É uma população grande, com renda e riscos concretos. Ainda assim, quase não aparece nas estatísticas de microsseguros. Por que um mercado de 17,2 milhões de pessoas continua tão difícil de proteger?

Em 2025, os microsseguros arrecadaram R$ 1,46 bilhão no Brasil, cerca de 1% dos seguros de danos, apesar de as favelas representarem quase 10% da população do país. O valor caiu 10,9% em relação a 2024, enquanto os seguros de danos cresceram 7,32%.

O contraste é revelador: enquanto a população de menor renda representa um mercado potencial de R$ 300 bilhões, o produto criado para ampliar sua proteção movimenta apenas uma fração desse valor.

Os R$ 1,46 bilhão, porém, não medem todo o seguro contratado por essa população. Microsseguro é uma categoria regulatória da Susep (Superintendência de Seguros Privados); a proteção voltada às famílias de menor renda também pode estar em outras modalidades.

Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. Há renda, há exposição ao risco e há demanda potencial. Falta transformar isso em escala.

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A pesquisa do Instituto Locomotiva, feita a pedido da CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras), mostra que o problema não é simplesmente desconhecimento ou orçamento apertado: 62% dos moradores de favelas dizem já ter passado por situações que teriam sido mais fáceis se tivessem seguro. Para 57%, a principal função do produto é dar tranquilidade e segurança. Só 15% nunca se informaram sobre seguros e não têm interesse no assunto. Leia a íntegra (PDF – 594 kB).

Se o risco é conhecido e a utilidade do seguro também, o que mantém as contratações em níveis tão baixos?

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, há uma barreira menos visível: o seguro ainda não é percebido como um produto feito para a favela.

“Ele sabe que a Ferrari é um carro, nem por isso ele acha que a Ferrari é para ele. A Ferrari é para milionário”, compara Meirelles. A alegoria resume o problema: o seguro é conhecido na favela. O que ainda não está consolidado é a ideia de que ele também é para quem mora nela.

Essa distância não se resolve apenas com preço. Segundo Meirelles, os produtos precisam conversar com a realidade de quem tem um carro com mais de 10 anos, trabalha como motorista de aplicativo ou depende da própria batedeira para gerar renda. Também precisam chegar por canais que façam sentido para esse público.

Gilson Rodrigues, presidente do G10 Favelas, grupo que reúne representantes de favelas de diferentes regiões do país, e morador de Paraisópolis, identifica a mesma barreira na forma como o mercado se apresenta. “Quando a gente olha para as propagandas no Brasil, inclusive das seguradoras, até o cachorro é loiro”, diz.

A imagem que ele descreve é a de uma família branca, um cachorro golden retriever e uma casa com jardim. Para Gilson, a mensagem implícita é que aquele produto pertence a outro Brasil –e, portanto, não foi feito para quem vive na favela.

“Nós queremos ver nossa cara dentro das propagandas. Nós queremos ver a gente fazendo parte daqueles produtos e percebendo que é para a gente.”

A propaganda pode atrair. Mas também há a questão do que está em jogo quando o risco surge.

Na pesquisa do Instituto Locomotiva, 60% dos moradores de favelas dizem que alguém da família já teve o celular roubado. Para 55%, algum equipamento usado para trabalhar já quebrou, comprometendo uma ferramenta de geração de renda. Em 47% dos casos, uma doença ou acidente já provocou perda de renda. Para 41%, a família já enfrentou a morte de um parente sem dinheiro para o funeral. E 29% relatam roubo de carro ou moto com perda do meio de transporte usado para trabalhar.

São riscos que atingem o patrimônio e, muitas vezes, a própria capacidade de gerar renda.

É o caso de quem

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Fonte: Poder360

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