Moradores da Maré se mobilizam para divulgar locais de votação


“Pensei em todo momento em desistir”. A declaração é do fotógrafo Marlon Soares, morador do Complexo da Maré, conjunto de 16 comunidades onde moram cerca de 140 mil pessoas, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele se refere à a dificuldade para conseguir votar no dia 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições gerais. Marlon é um dos quase 17 mil eleitores da Maré que tiveram o local de votação alterado este ano em relação à eleição de 2024. Notícias relacionadas: TRE-RJ alerta eleitores sobre alteração no local de votação. Saiba quais locais de votação mudaram em São Paulo no 2º turno. “Eu estou muito incomodado com essa decisão de mudança de local de votação”, disse à Agência Brasil . “Sempre votei lá, inclusive, é o mesmo local de votação da minha família. Era o melhor local para votar, por conta da fila, que não existia”, complementa ele, que relata ter encontrado “filas gigantescas” no novo endereço. “Me jogaram para outro bairro. Tive que pegar condução para chegar e fiquei mais de duas horas na fila para conseguir votar”, conta. Troca de endereço em relação a 2024 A alteração do local de exercício do voto este ano para seis cargos, incluindo o de presidente, que terá segundo turno no próximo domingo (25), foi decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). As mudanças foram determinadas com o objetivo de retirar as seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco ou dominadas pelo crime organizado. Segundo o TRE, os novos locais de votação ficam fora de áreas controladas pelo tráfico de drogas ou por milícias, afastados de territórios dominados por facções rivais e o mais próximo possível de cada local de votação substituído. No estado, 72 locais de votação foram alterados em relação a 2024 por questões de segurança. As mudanças aconteceram em 20 cidades, incluindo a capital. A medida afeta cerca de 202 mil eleitores. Especificamente no Complexo da Maré foram 16.907 eleitores, todos pertencentes a 41 seções pertencentes à 161ª Zona Eleitoral, segundo informou o TRE-RJ à Agência Brasil. Veja os locais alterados na região em relação às eleições de 2024: 7.268 eleitores que votavam na Escola Municipal Professor Josué de Castro passaram a votar no Centro Educacional Gama E Souza 4.907 eleitores que votavam na Escola Municipal Teotônio Vilela passaram a votar no Bonsucesso Futebol Clube 4.732 eleitores que votavam na Escola Municipal Professor Paulo Freire passaram a votar na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma Em relação ao local de votação do primeiro turno das eleições deste ano , o Rio de Janeiro terá mudança em apenas um endereço: no bairro de Brás de Pina, na zona norte da capital fluminense (seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª Zona Eleitoral), segundo o TRE-RJ. Abstenção De acordo com levantamento feito pela Agência Brasil com base nos Boletins de Urna, que mostram o total de votos de cada urna eletrônica, a abstenção nas 41 seções eleitorais da Maré que tiveram o endereço transferidos em relação a 2024 chegou a 31,07% , superando os 21,08% da média nacional. Segundo o estudo Como vota a Maré , elaborado pela organização não governamental Redes da Maré, os dados não permitem estabelecer uma relação causal direta entre a mudança dos locais e a abstenção, especialmente porque houve crescimento do eleitorado, “mas reforçam a preocupação com as barreiras de acesso produzidas pelos deslocamentos para fora do território”. No domingo de votação, o TRE não relacionou aumento de abstenção à mudança de local de votação. Meses antes da votação, a Justiça Eleitoral orientava os eleitores a consultar previamente o endereço do local de votação . À Agência Brasil, o TRE-RJ enfatizou que o transporte público no dia da votação é gratuito no país, com base na Resolução 23.759/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O TRE-RJ informou que ofereceu, por meio do projeto Seu Voto Importa , transporte especial adaptado para eleitores com mobilidade reduzida, no Complexo da Maré, “mas não houve procura”. Mobilização Para orientar moradores e tentar baixar a abstenção no conjunto de comunidades, a Redes da Maré realiza de terça-feira (20) a sexta-feira (23) a mobilização Esquinas por Direitos , conversando com os moradores sobre o direito ao voto. Os pontos exatos de ação podem ser consultados diariamente no perfil da instituição. A ONG também divulga informações sobre o voto pelas redes sociais, o que inclui o esclarecimento de que quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no dia 25 . O mesmo vale para quem ainda não tem a biometria cadastrada . “Antes de sair de casa, confira seu local de votação e a situação do seu título eleitoral”, frisa uma das postagens, acrescentando que a ocorrência de filas deve ser menor, uma vez que no Rio de Janeiro, não haverá segundo turno para governador. “Só votaremos em presidente”, orienta. Além disso, moradores trocam informações sobre o direito democrático por meio de aplicativos de mensagens. >> Veja aqui como consultar o local de votação e seção eleitoral Efeito das alterações De acordo com o Como Vota a Maré, a abstenção deste ano foi maior que a de 2024 (28%), quando o conjunto de comunidades também tinha passado por mudança massiva de locais de votação. Nas contas da ONG, em quatro anos, 50% dos eleitores tiveram novos pontos de exercício do voto. Para a instituição, o impacto dessas mudanças envolve, principalmente, questões de acessibilidade e mobilidade urbana, pois altera rotas de deslocamento entre residências e seções eleitorais, especialmente de eleitores que antes votavam dentro da Maré. “A transferência pode significar aumento do tempo de caminhada, necessidade de atravessar grandes vias como a Avenida Brasil e Linha Amarela, ausência ou inadequação de transporte público, trajetos percebidos como inseguros e a necessidade de sair do próprio território para votar, o que impacta desproporcionalmente jovens, mulheres chefes de família, pessoas com deficiência e pessoas idosas que vivem na Maré”, avalia a ONG, que estima em 62% a proporção de pretos e pardos no Complexo da Maré. A Redes da Maré acrescenta que “transporte gratuito não é suficiente quando o transporte não chega ao território”. A analista de Incidência Política da Redes da Maré, Lia Manso, destaca que o voto e a participação democrática são elementos centrais para qualquer pessoa. Ela lembra que o voto “foi um direito arduamente conquistado e reafirmado em um contexto de redemocratização”. “A luta por ele não está terminada”, diz à Agência Brasil . Segundo ela, grande parte dos moradores da Maré “são pessoas que estão, de alguma forma, precarizadas pelos direitos” da segurança pública ao saneamento, passando por educação, cultura e o voto. “O trabalho da Redes da Maré neste momento é estar nas ruas, trazer a dinâmica do debate sobre o voto e a importância da participação democrática, exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa, não só porque é um direito individual, mas porque impacta coletivamente o território e a vida de todas nós”, avalia a advogada.
Fonte: Agência Brasil - Política
Leia também
EducaçãoGoverno pretende realocar R$ 20 bilhões no Orçamento de 2027
Ajuste manterá limite de gastos e meta de superávit, diz Ministério do Planejamento e Orçamento Na nota, a pasta declarou que o compromisso com o equilíbrio fiscal deve caminhar junto à manutenção de políticas públicas e à melhoria da qualidade do gasto Reprodução/MPO - 1º.jun.2023 Agência Brasil 19
EducaçãoCelina pede que professores não façam paralisação: "Momento de politização"
Distrito Federal Celina pede que professores não façam paralisação: "Momento de politização" . Veja vídeo Sinpro-DF convocou paralisação para quarta-feira (21/10), na Praça do Buriti, em defesa da autonomia das escolas Fernanda Cavalcante , Maitê Doreto 19/10/2026 17:43 , atualizado 19/10/2026 17:49
EducaçãoVicentinho tem 56,6% e Dorinha, 43,5% no 2º turno no TO, diz pesquisa
Paraná Pesquisas ouviu 1500 eleitores do Estado do Tocantins de 14 a 17 de outubro de 2026; margem de erro é de 2,5 p.p. Na imagem, Vicentinho Júnior (à esq.) e Professora Dorinha Câmara dos Deputados – 27.mai.2026 e Jefferson Rudy/Agência Senado – 11.jun.2023 PODER360 19.out.2026 (segunda-feira) -
Mais lidas
- 1AtlasIntel confirma PoderData/Aya e dá Flávio com 53% e Lula com 47%
- 2Ao vivo: Flávio Bolsonaro realiza ato na av. Paulista
- 3Lula e Flávio têm 49% cada um no 2º turno no Amazonas, diz PoderData
- 4Veja ato de Lula na av. Paulista em imagens captadas do alto
- 5Nara Ayres Britto, advogada e filha de ex-ministro, celebra casamento