Voto útil: Estratégia de Flávio Bolsonaro visa antecipar segundo turno
Campanha do senador busca concentrar apoio contra Lula, apesar de implicações estatísticas


A reta final da eleição presidencial tem sido marcada pela crescente relevância do voto útil na estratégia da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) contra seu principal oponente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Uma pesquisa Real Time Big Data, divulgada em 24 de agosto, apontou Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio com 37%, caracterizando um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Em um cenário simulado de segundo turno, Flávio aparece numericamente à frente, com 45% contra 44% de Lula. Este resultado indica uma oscilação favorável a Flávio em comparação com o levantamento anterior do mesmo instituto, de 1º de setembro, onde ambos estavam numericamente empatados no segundo turno com 44%.
Diante desse panorama, a campanha de Flávio Bolsonaro passou a incentivar abertamente o voto útil, direcionando pedidos a eleitores que inicialmente consideravam outros adversários de Lula. A estratégia também explora a percepção de que a disputa está polarizada entre os dois primeiros colocados. No entanto, essa abordagem, embora com clara lógica política, encontra ressalvas do ponto de vista matemático, pois a migração de votos entre candidatos que já estão atrás do líder não altera a soma total de votos destinados aos adversários do primeiro colocado, o que significa que a chance de haver um segundo turno permanece a mesma. A mudança pode, contudo, definir quem avança para a segunda etapa.
Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest, esclarece que, embora estatisticamente as mudanças entre candidatos de menor intenção não afetem a probabilidade de segundo turno, é comum que eleitores antecipem o voto de segundo turno para o primeiro. Russo distingue dois tipos de movimentos: eleitores que abandonam candidaturas com menor intenção de voto para apoiar a que consideram mais forte contra o líder, como por exemplo, eleitores de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos ou Romeu Zema migrando para Flávio Bolsonaro. Esse movimento não altera a soma dos votos dos adversários de Lula, mas pode consolidar Flávio como o principal nome contra o presidente. Existe, ainda, um componente psicológico, pois, segundo Russo, as campanhas exploram o fato de que muitos não percebem a diferença matemática e que a antecipação do voto confere maior peso à escolha do eleitor.
Fábio Machado, chefe do Departamento de Estatística do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), explica que, para presidente e governador, a vitória no primeiro turno exige maioria absoluta dos votos válidos. Caso contrário, os dois candidatos mais votados disputam o segundo turno, excluindo-se brancos e nulos do cálculo. Estatisticamente, a concentração de votos em um único adversário não é essencial para garantir o segundo turno, desde que a soma dos votos dos oponentes do líder seja maior que a dele. A situação se altera apenas se o eleitor migrar para o líder, anular, votar em branco ou deixar de comparecer.
Embora a migração entre adversários não mude necessariamente a realização do segundo turno, ela pode ser determinante para definir quais candidatos estarão nele. Russo classifica esse fenômeno como voto estratégico, visando tanto a uma vitória no primeiro turno quanto a influenciar a escolha do oponente do líder na etapa subsequente. O diretor de Inteligência da Quaest aponta que candidaturas com baixo conhecimento, baixa rejeição e trajetória de crescimento têm maior potencial para receber o voto útil, diferentemente de candidatos estagnados, que tendem a ter menos espaço para atrair eleitores que priorizam a competitividade.
Fonte: Opinião Brasília
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