Enfermeiros denunciam sobrecarga no Hospital de Santa Maria, no DF: 'Somos tirados do almoço para entrar em cirurgia'
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Fachada do Hospital Regional de Santa Maria, no DF Reprodução/Agência Brasília Jornadas de trabalho intensas, com acúmulo de funções e, muitas vezes, sem direito ao horário de almoço. Enfermeiros do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) denunciam más condições de trabalho no centro obstétrico da unidade. 🔎 O HRSM é gerido pelo Iges-DF, uma organização vinculada ao governo do DF também responsável pela gestão do Hospital de Base e Hospital Cidade do Sol, além de todas as 13 UPAs do Distrito Federal. Os relatos se intensificaram após uma denúncia ao Coren-DF e já foram assunto para reunião entre o órgão e o Iges-DF, ainda sem uma solução concreta. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 no WhatsApp. Nos depoimentos, os funcionários afirmam que um único enfermeiro é designado para cuidar de todo o setor durante o plantão, mesmo com a presença de pacientes em estado grave e necessidade de acompanhamento integral. As equipes dizem estar sofrendo de "adoecimento mental" devido às condições de trabalho. “Além da classificação de risco, esse enfermeiro realiza admissões, cardiotocografias (CTB), transferências, partos ocorridos na própria triagem, cobertura do enfermeiro durante o horário de repouso e outras demandas assistenciais, acumulando funções incompatíveis com a atividade de classificação”, diz a denúncia. Mensagens enviadas ao g1 mostram pedidos de ajuda durante plantões. “Estou sozinha e não consigo colocar todas essas CTBs, as pacientes estão brigando aqui na porta. Estamos com alta demanda na triagem e sozinha não consigo internar, colocar CTB e triar”. ➡️ A cardiotocografia, conhecida como CTB entre profissionais de saúde, é um exame não invasivo que monitora os batimentos do bebê e as contrações uterinas. É um dos principais procedimentos para avaliar os estágios finais da gestação e o próprio trabalho de parto. Em nota (leia íntegras ao fim da reportagem), o instituto afirmou que “acompanha continuamente o dimensionamento das equipes e os fluxos de atendimento, adotando as medidas necessárias de acordo com as demandas dos diferentes setores assistenciais”. O Iges afirmou também que vem se reunindo com o Conselho Regional de Enfermagem (Coren-DF). O conselho confirma que se reuniu com o Iges em setembro. E diz que, na ocasião, estabeleceu prazo de 90 dias para que o instituto apresente medidas de readequação. Segundo o Conselho, foram identificadas, durante a vistoria, "irregularidades no dimensionamento das equipes de Enfermagem e situações de sobrecarga assistencial". 2025: Secretário de Saúde fala sobre falta de médicos e sobrecarga dos hospitais, no DF 'Cenário preocupante', diz sindicato Na última semana, o Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal (SindEnf-DF) visitou o local e denunciou "cenário preocupante de superlotação e sobrecarga assistencial". "Foram identificadas crianças em espaços improvisados para a prestação de cuidados intensivos, enquanto aguardavam transferência para unidades de referência. A situação evidencia a insuficiência da estrutura disponível para atender à demanda e impõe riscos à segurança dos pacientes e dos trabalhadores, especialmente da equipe de enfermagem, que enfrenta uma sobrecarga expressiva", afirma a entidade. O sindicato declarou que vai encaminhar representações ao Ministério Público e à Comissão de Saúde da Câmara Legislativa do DF para exigir providências. Desvios de função O desvio de função está entre os problemas mais relatados pelos profissionais. Entre os casos, a escalação de enfermeiros não especializados em neonatologia para cuidado do “aquário”, local onde ficam recém-nascidos em estado grave. “Começaram as chacotas nos corredores da própria gestão e começou a piorar as questões que a gente já tinha relatado. A gente falou que a gente não queria ser escalado no RN, que existia enfermeiro neonatologista para isso lá, mas estão pegando o enfermeiro obstétrico e colocando lá. Então, isso é uma forma de penalização depois das denúncias”, diz um dos funcionários. Outra enfermeira confirma a transferência dos funcionários para outros setores de forma arbitrária. "Se a pessoa dizia que não gostava do setor, eles faziam questão de pôr onde você não tinha afinidade", afirma. Em março, um crime levou o HRSM aos noticiários. Uma técnica de enfermagem foi acusada de tentar roubar um bebê do local. "Colocaram ela como criminosa, mas ela teve um surto", conta uma das profissionais. Segundo a enfermeira, a acusada havia acabado de perder o pai e o filho e passava por um momento de instabilidade sem acompanhamento adequado. Mesmo assim, foi colocada para trabalhar com os recém-nascidos. A polícia prendeu uma técnica de enfermagem suspeita de tentar raptar um bebê recém-nascido no Hospital Regional de Santa Maria. Na época, ela precisava ser constantemente "vigiada" pelos colegas, mas a sobrecarga e rotatividade não possibilitavam a tarefa. "A equipe se abalou, não tivemos acompanhamento psicológico nem psiquiátrico. Para nós, foi um caos ver nossa amiga presa", conta. Acúmulo de cargos Essa mesma servidora denuncia a jornada exaustiva no centro cirúrgico da unidade. Ela relata que o local já chegou a ter 14 cirurgias em um dia, com quadro reduzido de enfermeiros para acompanhar os procedimentos. “Às vezes, dá tempo de sentar dois minutos e já tem outra. Somos tirados do almoço para entrar em cirurgia”, conta. A falta de vagas na própria unidade também tem sobrecarregado os funcionários. “É para ficar até seis horas no máximo na recuperação do centro cirúrgico. Por não ter vaga [em outros setores de internação], os pacientes ficam até dois dias. Puérperas que deveriam ir para a UTI também acabam ficando conosco por 24 horas”, afirma. IGES-DF abre apuração interna para investigar morte dentro de UPA Casos evitáveis Entre os desvios e a falta de tempo hábil para atender a todas as demandas, casos de complicações evitáveis preocupam os servidores. Em um desses casos, uma enfermeira não conseguiu salvar a vida de um dos bebês. As equipes afirmam que a morte não foi motivada por erro profissional ou negligência, mas por falta de tempo para cuidar de todas as demandas. Na ocasião, segundo os relatos, a enfermeira precisou se ausentar por alguns minutos após horas sem comer – mas não havia nenhum outro profissional para cobrir o horário. "Quando ela foi avaliar a paciente, descobriu que era um descolamento de placenta, uma emergência médica, onde a mulher perde muito sangue. E que, se fosse identificado precocemente, poderia salvar a vida do bebê", conta uma das testemunhas. A paciente foi encaminhada para a emergência, mas o bebê não sobreviveu. "E é claro que a culpa não é da enfermeira jamais, em hipótese nenhuma. A gente não tinha enfermeiro suficiente. Houve um atraso na classificação porque a enfermeira não tinha que ficar responsável por várias outras demandas, além da classificação. E aí, um bebê de 37 semanas não resistiu", diz o relato. O que diz o Iges-DF O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) informa que vem adotando medidas para contratação e reposição de profissionais em suas unidades, incluindo o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM). Entre janeiro e agosto de 2026, foram abertos 98 processos seletivos para formação de cadastro reserva e 1.234 profissionais passaram a integrar as equipes do Instituto. A gestão acompanha continuamente o dimensionamento das equipes e os fluxos de atendimento, adotando as medidas necessárias de acordo com as demandas dos diferentes setores assistenciais. O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) esteve recentemente no HRSM e reconheceu os esforços adotados pela instituição para atender às necessidades identificadas e aprimorar a organização das equipes. O IgesDF reafirma seu compromisso com a segurança dos pacientes, a qualidade da assistência e a manutenção de condições adequadas de trabalho aos profissionais. O que diz o Coren-DF O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) realizou uma fiscalização no Centro Obstétrico do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) após denúncias sobre sobrecarga de trabalho, dimensionamento de pessoal e organização do serviço. Durante a fiscalização, foram identificadas irregularidades no dimensionamento das equipes de Enfermagem e situações de sobrecarga assistencial, incluindo o acúmulo de funções e a atuação de enfermeiros em demandas que extrapolavam suas atribuições em razão da ausência de médicos. A Enfermagem possui autonomia para o exercício de suas atribuições, mas integra equipes multiprofissionais e atua de forma articulada com as demais categorias da saúde. A ausência de profissionais de outras áreas não deve resultar na transferência de atribuições para Enfermagem por demandas que não são de sua competência. Entre as situações verificadas estão a concentração de demandas no serviço de Classificação de Risco, com realização simultânea de outras atividades assistenciais, além da responsabilidade por procedimentos como cardiotocografias. Também foram identificados problemas na distribuição dos profissionais destinados à assistência neonatal de alta complexidade. O Coren-DF notificou a instituição e os órgãos responsáveis para a adoção das medidas necessárias. Diante da ausência de adequação, o Conselho convocou a instituição para uma audiência de conciliação, etapa que antecede a adoção de medidas judiciais. Como encaminhamento, a instituição deverá realizar um estudo do dimensionamento das equipes de Enfermagem e apresentar, dentro do prazo estabelecido, as medidas para adequação do quadro e organização do serviço. Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.
Fonte: G1 DF
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