EUA querem se antecipar em mercado de computação quântica


Governo Trump tenta evitar cenário de chips tradicionais, em que produção é concentrada no Taiwan
Empresa de chips instalada em Nova York recebeu aporte de US$ 1 bilhão do governo Trump e outros US$ 1 bilhão da IBM Divulgação/Anderon Leo Garfinkel enviado especial a Los Angeles (EUA) 11.out.2026 (domingo) - 10h00 Priorize o Poder no Google O governo dos Estados Unidos iniciou neste ano um movimento para largar na frente no mercado de computação quântica, setor que ainda está a pelo menos 5 anos de um produto comercialmente viável, segundo especialistas ouvidos pelo Poder360 .
Já na mira de gigantes como Google, Amazon e Microsoft, a computação quântica é um modelo de processamento que utiliza as leis da física quântica para resolver problemas extremamente complexos em segundos, usando um vasto número de dimensões e possibilidades computacionais.
Os computadores quânticos não vão substituir smartphones ou laptops, mas têm potencial de uso em escala comercial, como o desenvolvimento de novos medicamentos e materiais, como ligas metálicas leves ou resistentes à corrosão e ferrugem. Há ainda a perspectiva de aplicações nos setores de defesa, aeroespacial e automotivo.
Nos EUA, o setor da quântica já é uma realidade. A tecnologia deu origem a centenas de empresas no país e costuma ser dividida por cientistas nas áreas de computação, comunicação e sensoriamento –que em alguns anos será usada na detecção de secas, tsunamis e terremotos e na exploração como minerais, petróleo e gás.
No caso da computação quântica, big techs, startups, laboratórios privados, institutos e universidades estão em uma corrida para transformar uma tecnologia considerada altamente complexa em produtos comerciais.
O governo norte-americano acompanha de perto essa disputa e tenta se posicionar à frente de outras nações antes do surgimento de uma demanda global por esse tipo de tecnologia.
O HRL Laboratories está no centro da estratégia do governo dos EUA para assegurar o protagonismo no mercado de computação quântica. Sediada em Malibu, na Califórnia, é uma instituição privada focada no desenvolvimento de propriedades intelectuais, protótipos de alta tecnologia e fabricação de componentes avançados em pequena escala.
O laboratório é referência internacional no desenvolvimento de qubits de spin em silício, conhecidos como “bits quânticos”, que armazenam e processam informações e ajudam a simular o comportamento de átomos e moléculas em um nível de detalhe que os computadores normais não conseguem alcançar. Na prática, são a infraestrutura essencial da computação quântica.
Essa pesquisa levou a IBM , multinacional norte-americana e uma das maiores empresas de computação no mundo, a comprar 100% do HRL em 26 de agosto. O laboratório era controlado em conjunto pela Boeing e pela General Motors , que continuarão colaborando com a IBM mesmo após a conclusão da transação.
“Essa aquisição realmente significa uma grande mudança de rumo em toda a indústria de computação quântica. Isso está acontecendo porque o campo como um todo, e especialmente no HRL, está se movendo de algo mais orientado à pesquisa para algo mais orientado ao comércio” , disse o cientista-chefe da Divisão de Física Computacional da HRL, Thaddeus Ladd , em conversa com jornalistas da imprensa internacional, em Los Angeles.
A aquisição é o 2º passo de um movimento coordenado entre IBM e o Departamento de Comércio dos EUA , que criaram em maio a subsidiária Anderon , empresa que atuará no desenvolvimento de uma linha de produção de wafers voltados à computação quântica.
Instalada no polo de Albany, Nova York, a operação recebeu aporte de US$ 1 bilhão do governo Trump por meio do Chips and Science Act, lei norte-americana de incentivos à indústria de chips, e outros US$ 1 bilhão da IBM.
“A tecnologia na qual estamos trabalhando, a IBM quer transformá-la em um produto que seja vendido. O governo está pagando para perguntar ‘isso é possível ou não?’” , diz Ladd.
A vantagem de usar silício, segundo Ladd, é poder aproveitar fundições, técnicas e máquinas usadas na produção em massa dos chips convencionais de computadores, laptops e celulares, que também têm o metal como matéria-prima. Em vez de desenvolver um método de fabricação do zero para computadores quânticos, a aposta nos qubits de spin em silício consiste em utilizar a infraestrutura de semicondutores já existente.
Com o movimento, o governo dos EUA tenta evitar um cenário semelhante ao da indústria de microchips tradicionais, em que quase a totalidade dos equipamentos é produzida no Taiwan, em um mercado dominado por empresas como a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), que fornece chips para gigantes globais como Apple e Nvidia.
“Temos que desenvolver uma linha de fabricação não apenas para as GPUs e CPUs que vão em laptops, mas também para esses tipos de qubits de spin. E onde isso vai ser? Obviamente, o interesse do governo dos EUA é que isso aconteça em solo nacional. Parte deste acordo de aquisição do HRL pela IBM é que vamos desenvolver conjuntamente uma linha de fabricação em solo americano para esses tipos de qubits” , afirma Thaddeus Ladd.
Segundo o cientista, IBM e HRL montaram em setembro um cronograma para o projeto. Embora não tenha entrado em detalhes, Ladd disse que a ideia é “começar o mais rápido que pudermos” , mas avalia que a produção em escala comercial não deve começar nos próximos 5 anos.
Questionado pelo Poder360 se o objetivo do projeto é vender em escala global, o cientista afirmou que a pesquisa em desenvolvimento é protegida por “controles de exportação” do governo norte-americano, mas o produto final “certamente” será vendido a outros países.
“Em termos de venda comercial e acesso a computadores, a intenção é que seja em escala mundial” , declarou.
*o jornalista viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA.
Fonte: Poder360
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