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Silêncio em Flagrante

Redação Cerrado em Foco••1 visualizações
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Silêncio em Flagrante
Silêncio em Flagrante - imagem 2

Às 14h37, chegou uma mensagem. Às 14h42, outra. Às 14h51, a terceira, já sem paciência: tá tudo bem? por que você não respondeu?

O sujeito estava no banheiro. Ou almoçando. Ou olhando o teto, esse esporte em extinção desde que inventaram a agenda cheia. Voltou às 15h20, leu as três, e descobriu que já não bastava responder. Precisava explicar o desaparecimento. Cinco minutos de silêncio e eis o cidadão endividado.

Antigamente, quem não respondia estava ocupado. No limite, dormindo, sem sinal, morto. Hoje, quem não responde está tramando. O silêncio deixou de ser silêncio. Virou sintoma. Nunca falamos tanto. Nunca foi tão difícil ficar calado.

Instalou-se entre nós uma economia da satisfação. Não a do consumo, a outra, a de dar satisfação. Cada gesto pede nota fiscal. Por que recusou o convite? Por que mudou de comportamento? Por que não publicou nada da viagem? Por que sumiu da conversa?

E a campeã: por que você não quer contar o que está fazendo? Repare. A pergunta não quer informação. Quer explicação pela recusa de informar. O silêncio intimado a depor sobre si mesmo.

Ninguém assinou esse contrato. Apareceu pronto, cláusula por cláusula, entre a vitrine e o confessionário. As redes prometeram ser diário, praça, álbum de família. Viraram balcão de prestação de contas. Você publica porque deu vontade e de repente a ausência de publicação vira notícia. Quem não posta está triste, doente, magoado. Ou pior: escondendo algo.

Daí a figura nova que circula por aí: a pessoa que não explica tudo. Não publica cada detalhe. Sai sem avisar. Muda de ideia sem comunicado oficial. Não faz mal a ninguém. Mas incomoda. Há algo de desconcertante em quem não se deixa decifrar. A curiosidade, que antes era só curiosidade, agora anda disfarçada de direito.

Onde falta informação, entra imaginação. Automático. Você não sabe por que o sujeito não respondeu, então inventa. Está ocupado? Está com raiva? Está me evitando? Conheceu outra pessoa? Morreu?

O cérebro não gosta de espaço vazio. Preenche. Antes, convivia com a dúvida. Hoje tem internet, grupo, resposta rápida. Em cinco minutos a suspeita vira teoria. A teoria vira mensagem. A mensagem chega cobrando.

Silêncio não é virtude. Às vezes é prudência. Às vezes é medo. Às vezes é indiferença. Às vezes é falta de assunto. O sujeito não respondeu porque não quis, porque esqueceu, porque não soube o que dizer, porque estava dormindo. Nada disso tem graça. Por isso a imaginação prefere o drama. Um silêncio sem motivo é uma afronta à narrativa alheia.

Então inventam. Magoado, arrogante, culpado, tramando. E como invenção precisa de plateia, comentam: fulano tá estranho, não responde, não fala, não posta . Pronto. O silêncio, que era seu, virou biografia. Você não disse nada e já tem obra completa, com prefácio e nota de rodapé.

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A cultura da exposição fez uma troca sem anunciar. Entregamos intimidade em troca de transparência. Só que transparência não é o contrário de mentira. É o contrário de mistério. E este, tornou-se insuportável em público. Viajar sem fotografar parece desperdício. Comer sem publicar, também. Mudar de ideia sem avisar soa quase como falha de caráter. Desaparecer de uma conversa sem explicação em três vias é falta de educação. A privacidade não foi proibida por lei. Foi proibida por hábito.

Quem a preserva vira suspeito. Por que você não conta? O que está escondendo? Como se guardar algo para si fosse o mesmo que esconder algo errado. Como se a vida alheia fosse bem público, disponível para consulta e fiscalização. Quem prefere não dizer o que pensa, faz ou sente comete um crime contra a curiosidade. A pena é a fama de esquisito.

Cuidado, porém, para não transformar isso em defesa automática do silêncio. Quem gosta de mostrar, mostre. Quem gosta de contar, conte. O problema não é a vitrine. É achar que todo mundo tem que expor na mesma vitrine, no mesmo horário, com o mesmo sorriso.

O problema começa quando a possibilidade de saber é confundida com o direito de saber. A tecnologia me deu acesso a você; em algum momento passei a achar que tinha direito a você. Raciocínio que começa na conveniência e termina na vigilância, sem escalas.

Talvez a pergunta incômoda não seja por que você não respondeu , mas por que eu preciso tanto que você responda .

O que está em jogo quando alguém fica calado? Quase nunca é informação urgente. É controle. Quando o outro não explica, o mundo escapa um pouco das nossas mãos. E mundo que escapa é mundo que não obedece.

Talvez muitas pessoas não queiram a verdade. Queiram apenas não suportar o fato de não saber. A verdade costuma ser decepcionante: estava almoçando, dormindo, distraída, não quis responder. Nada disso alimenta a imaginação. Por isso ela prefere traição, drama, vingança, mistério. Qualquer coisa é mais suportável do que a banalidade de alguém que simplesmente não respondeu. É por isso que o silêncio incomoda mais do que a mentira. A mentira tem forma. Chega, apresenta uma versão, pode ser contestada. O silêncio não oferece nada concreto. Não diz coisa alguma e, justamente por isso, deixa o outro ouvir o que quiser. Terreno fértil.

Às 15h20, o sujeito finalmente responde: oi, desculpa, estava almoçando. Insuficiente. Curta demais. Sem drama, sem reviravolta. O outro esperava uma história e recebeu um almoço. A vida real tem essa mania de ser banal. Para quem esperava acontecimento, a banalidade chega a parecer provocação.

A dificuldade não está no silêncio de ninguém. Esteja na nossa dificuldade de conviver com um vazio que não controlamos. A pergunta não é o que o outro está escondendo. É por que precisamos tanto que ele não esconda nada. Se a resposta for que não suportamos não saber, então o problema nunca esteve em quem ficou calado.

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Fonte: Oito Quatro Notícias

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