STF em dia de arquivamentos: acusações explosivas perdem força em pleno segundo turno


Gilmar Mendes encerra caso envolvendo Alfredo Gaspar, vice de Flávio Bolsonaro, enquanto vem a público decisão de Moraes que arquivou investigação contra Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ed Raposo
Em Brasília, há dias em que uma notícia já seria suficiente para movimentar o mundo político.
Em pleno segundo turno da eleição presidencial, o Supremo Tribunal Federal apareceu no centro de dois episódios envolvendo personagens diretamente associados à disputa política dos últimos anos.
No primeiro, o ministro Gilmar Mendes determinou o arquivamento do pedido de investigação envolvendo Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro .
No segundo, veio a público que Alexandre de Moraes arquivou investigação envolvendo Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ed Raposo .
Juridicamente, cada processo tem sua história, suas provas e suas razões para terminar. Politicamente, entretanto, é impossível ignorar o momento em que as decisões chegam ao conhecimento da população.
Acusação gravíssima contra Gaspar termina sem abertura de inquérito
O caso envolvendo Alfredo Gaspar era particularmente delicado.
A acusação era de suposto estupro de vulnerável e havia sido levada à Polícia Federal pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS).
Os parlamentares sustentavam que Gaspar teria abusado sexualmente de uma adolescente de 13 anos, anos atrás, e que a relação teria resultado no nascimento de uma criança. Gaspar sempre negou.
A Polícia Federal pediu ao STF, em abril, autorização para abertura de inquérito. Antes de decidir, Gilmar Mendes encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República.
Vieram então análises de capturas de tela, arquivos de áudio, dados telefônicos, informações eletrônicas e depoimentos.
Segundo Gilmar Mendes, o material reunido não apresentou base indiciária suficiente para justificar a abertura do inquérito .
Gaspar não foi condenado, não virou réu e sequer chegou a ser formalmente investigado por meio do inquérito que havia sido solicitado .
A acusação contra Gaspar voltou aos holofotes quando ele foi escolhido para ocupar a vaga de vice na chapa de Flávio Bolsonaro.
Naquele momento, a existência das diligências preliminares passou a integrar o noticiário eleitoral e naturalmente se transformou em munição para os adversários.
Gaspar reagiu desde o início afirmando que se tratava de perseguição política relacionada à sua atuação na CPMI do INSS.
O que agora existe como fato jurídico é a decisão do STF: o pedido de investigação foi arquivado por insuficiência de elementos para abertura do inquérito.
Após a decisão, Gaspar voltou ao ataque e classificou a acusação como “denunciação caluniosa”, cobrando punição para Lindbergh e Soraya.
Se haverá alguma consequência jurídica para os autores da representação é outra história — e dependerá de procedimentos próprios.
Como se o dia já não estivesse movimentado o suficiente, outra decisão do Supremo veio a público.
Alexandre de Moraes arquivou uma investigação envolvendo o senador Marcos do Val , além de Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ed Raposo .
Ela é de 4 de setembro , estava sob sigilo e somente agora se tornou conhecida.
Os quatro haviam sido indiciados pela Polícia Federal em agosto de 2025 sob suspeita de obstrução de investigações e incitação ao crime.
A investigação analisou publicações nas redes sociais, telefonemas, conversas privadas, informações fiscais e financeiras e depoimentos.
O foco era uma suposta campanha de exposição e intimidação contra integrantes da Polícia Federal e do próprio Supremo, particularmente o delegado Fábio Shor.
Depois de analisar o material, entretanto, a PGR chegou a uma conclusão que merece atenção.
Segundo a Procuradoria, os elementos reunidos não demonstraram suficientemente a existência de uma articulação estruturada para incentivar crimes contra agentes públicos ou impedir as investigações conduzidas no Supremo.
A PGR observou que algumas condutas poderiam, em tese, envolver crimes contra a honra.
Mas havia outro obstáculo: esse tipo de infração depende de iniciativa do ofendido e, no caso analisado, faltava a representação necessária.
Moraes acompanhou integralmente a posição do Ministério Público e determinou o arquivamento.
Em português direto: a Polícia Federal investigou e indiciou; a PGR analisou e concluiu que as provas não sustentavam aquelas imputações; Moraes encerrou o caso.
É aqui que Brasília oferece uma daquelas coincidências que praticamente escrevem sozinhas o roteiro político.
De um lado, o vice de um candidato à Presidência vê uma acusação gravíssima ser encerrada pelo Supremo 19 dias antes do segundo turno .
Do outro, justamente nesta mesma terça-feira, torna-se pública uma decisão que encerrou investigação contra personagens que durante anos estiveram no centro de alguns dos mais barulhentos embates com o STF.
Não há elemento que permita afirmar que qualquer dessas decisões tenha sido tomada em razão da eleição.
Mas há algo que o calendário não permite esconder: as consequências políticas das notícias desembarcam no meio da eleição. E eleições não acontecem em laboratórios. Acontecem nas ruas, nas redes sociais, nos programas eleitorais e na percepção do eleitor.
Os dois episódios deixam ainda uma reflexão que ultrapassa direita e esquerda.
Investigar suspeitas sérias é obrigação das instituições. Mas existe enorme diferença entre alguém ser acusado , investigado , indiciado , denunciado , tornar-se réu e finalmente ser condenado .
Na velocidade das redes sociais, essas etapas frequentemente são colocadas no mesmo liquidificador. Primeiro vem a manchete, depois vêm os julgamentos instantâneos e, muitas vezes, quando chega o arquivamento, a repercussão já não é a mesma.
No caso de Alfredo Gaspar, isso assume importância ainda maior porque estamos falando do candidato a vice-presidente de uma chapa que disputa o Palácio do Planalto.
Fonte: Opinião Brasília
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